quarta-feira, 19 de julho de 2017

PELO MUSEU NACIONAL DA MÚSICA EM COIMBRA



O Museu Nacional da Música tem tido uma vida atribulada e hoje estará perante mais um dilema no que toca à sua instalação. Atualmente na estação do Alto dos Moinhos, do Metropolitano de Lisboa, com base num protocolo celebrado entre a Direcção-Geral do Património Cultural e o Metropolitano de Lisboa, que está no seu términus, é natural que viva mais um tempo de ansiedade relativamente ao seu futuro.

Sendo um museu nacional e com um interessante espólio, a verdade é que ao visitá-lo e ao ler a sua história percebe-se quanto seria importante uma instalação definitiva e condigna. Um museu provisório é sempre um museu adiado que vai perdendo capacidade de afirmação, de reforço do seu espólio e de eventual degradação das suas condições de salvaguardo do património. Como é sabido não se fazem obras de manutenção ou melhoram as condições de instalação e exposição num espaço temporário.

Para mais não parece que instalações anexas a uma estação de metropolitano, como aquelas que hoje ocupa, sejam o espaço mais adequado à localização de um museu nacional. Aliás, os dados estatísticos dos últimos anos falam por si. O Museu da Música é dos museus nacionais um dos que tem um menor número de visitantes e este facto não pode ser desligado da sua localização.

Atrevo-me a dizer que esta situação só tem sido possível porque estamos a tratar de música. Porque a nossa música, nunca foi devidamente considerada pelos poderes públicos como um bem cultural essencial, tal como acontece noutros países, nem como um bem económico como de algumas décadas para cá foi assumido, por exemplo, pela Suécia em que representa uma fatia significativa do seu PIB.

Com a recente vitória no Festival da Canção foi possível perceber, através de uma simples canção cantada na nossa língua, o impacto a nível mundial e a consequente importância da música para o país, aos mais diversos níveis.

Como em tantas outras áreas, estamos hoje a descobrimo-nos e a ser descobertos e, por isso, não podemos desperdiçar esta oportunidade de evidenciar a nossa riqueza musical nas suas mais diversas expressões. É imperioso conhecer e divulgar o que se fez e o que se faz neste pequeno país mas tão singular nas mais diversas áreas culturais.

Quando recordamos o fantástico trabalho de pesquisa e recolha realizado pelo etnomusicólogo Michel Giacometti, que fundou na década se sessenta do século passado os Arquivos Sonoros Portugueses e trabalhos mais recentes de recolha musical como a série documental “Povo que ainda canta” de Tiago Pereira, percebemos a riqueza musical do país profundo e o quanto é preciso continuar a fazer para preservar esse património.

Também não podemos esquecer o reconhecimento do Fado como Património Imaterial da Humanidade, bem como um conjunto de grandes músicos, seja a nível de composição seja de execução, que se vem afirmando internacionalmente na música ligeira e no jazz, bem como a existência de excelentes instrumentistas a tocar nas melhores orquestras sinfónicas do mundo.

Há, ainda, a nível de construção de instrumentos uma enorme competência e uma grande capacidade de reinvenção e de recuperação de instrumentos que estavam em risco de desaparecimento.

Não sendo um melómano e assumindo a minha absoluta desafinação, tenho no entanto presente que como diz canção: “É que os desafinados também têm um coração”, e que não seria possível viver sem música e também considero que a minha cidade de Coimbra é de facto uma Cidade da Música, mesmo que não queiram que assuma esse estatuto. Há aqui um património musical fantástico, uma canção urbana única, excelentes músicos, dezenas de coros e também estudiosos e profundos conhecedores da nossa música.

Há em Coimbra um ambiente musical extremamente rico e ativo que é um importante elemento a acrescentar à sua qualidade de vida e a reforçar a sua natureza de cidade de cultura. Por tudo isto e porque um dos nossos mais celebrados músicos Carlos Seixas nasceu em Coimbra e vai fazer, no próximo dia 25 de agosto, 275 anos que faleceu, levam-me a defender a instalação definitiva em Coimbra do Museu Nacional da Música.

Tanto quanto é sabido o anterior governo terá equacionado a hipótese do Museu da Música ser instalado em Mafra o que implicaria custos que à partida são estimados em mais de 6,5 milhões de euros. Ora o Palácio Nacional de Mafra já tem problemas que cheguem, veja-se o que se passa com estado dos seus carrilhões.

Também não será despiciendo invocar a importância da descentralização de equipamentos culturais como este, lembrando, por exemplo, os argumentos invocados na defesa da instalação da Agência Europeia do Medicamento no Porto.

A localização geográfica de Coimbra, o seu ambiente e ambição cultural, bem como a possibilidade de encontrar sem grandes dificuldades instalações capazes de acolherem dignamente o Museu Nacional da Música e de permitirem o seu desenvolvimento são argumentos a considerar.

Fica o desafio à cidade, ao governo da cidade e ao Ministério da Cultura!

(artigo publicado na edição de 19 de julho, do jornal Público)




quinta-feira, 13 de julho de 2017

O FUTEBOL É ÚTIL MAS MUITO PERIGOSO



 O futebol, como é sabido, é muito útil e são tantos os seus méritos que me dispenso de os enumerar. É verdade que semeia alegrias e tristezas e provoca discussões impensáveis mas também é sustento de orgulho e de memórias, e provedor da leitura de jornais e revistas ajudando no combate à iliteracia. É, aliás, o grande tema do plano nacional de leitura para adultos.

Mesmo grandes escritores, como o Nobel Camilo José Cela, que em jovem ainda se aventurou como extremo esquerdo, escreveram sobre futebol. Veja-se, da sua autoria, a obra, cheia de humor, “Onze contos de futebol”, que custa uma bagatela e se pode ler numa tarde de sol na praia, sem riscos para a saúde.

Por estes dias, o futebol, deu mais uma prova da sua inequívoca capacidade, mostrando uma eficácia que envergonha a oposição porque conseguiu afastar três secretários de estado e alguns assessores e suplanta o governo porque provoca o temeroso silêncio de alguns destacados membros da oposição. É obra! Como se vê o futebol, mesmo no defeso, é extremamente eficaz.

O futebol e a política são, como está sobejamente provado, uma mistura perigosa, em que a emoção e  ambição se cruzam e em que não se conhecem significativas fronteiras ideológicas. Recorde-se que, aqui por Coimbra, tivemos o presidente de um clube de futebol nomeado diretor municipal do urbanismo pelo presidente da Câmara de então, que exerceu o cargo durante três anos perante o silêncio quase total dos autarcas de todos os partidos políticos, da esquerda à direita.

O medo de perder votos, “atacando” o dirigente do principal clube de futebol da cidade sobrepôs-se à normal luta partidária e levou a que todos, por ação ou omissão, acabassem por ser coniventes com essa insólita e grave situação. Note-se que mesmo a nível social, numa cidade como Coimbra, apenas uma ou duas vozes se levantaram na crítica e contestação a essa promiscuidade e é sabido que sem censura social é difícil alterar este estado de coisas.

No entanto o resultado final deste concubinato foi de tal modo desastroso para a Câmara, para a cidade e para o clube de futebol em causa, que se acredita nunca mais seja possível uma situação idêntica.

Mas o futebol aí está pujante e a demonstrar-se útil, afastado daquela velha e interessante discussão filosófica, sobre a utilidade do inútil. Claro que os factos ensinam que será bom não exagerar na utilização do futebol pela política e que não deixa de ser perigoso assistir àquelas sessões clubísticas em que figuras políticas, particularmente deputados, são banqueteados com jantares e discursos impossíveis dos presidentes dos “seus” clubes, que aplaudem entusiasticamente.

É que o futebol é útil mas também muito perigoso.

(Artigo publicado na edição de 13 de julho, do Diário de Coimbra)



quinta-feira, 15 de junho de 2017

O ELEITOR QUE CONFUNDIU UMA CANDIDATURA COM UMA BICICLETA



O eleitor consciente do seu dever cívico e que sabia já haver candidaturas às próximas eleições, decidiu começar uma empenhada busca de esclarecimentos para uma decisão ponderada e consciente. Para além dos fáceis gosto e das partilhas do facebook não queria deixar, em matéria como esta, de tomar decisão informada e de ir votar.

Foi assim que encontrou referências a uma já ativa candidatura, apoiada por quatro partidos e forças políticas, cujas siglas apareciam nos cartazes esmagadas pelo candidato comum, que vinha declarando distancia dos partidos e intenção de constituir uma equipa com independentes.

Claro que o eleitor estava curioso e confuso. Mas a política tem destas coisas, tão depressa se agregam partidos e se apela à fraternidade universal com  se excluem os pobres que aceitam o grande arquiteto da coligação.

Outra coisa que intrigou o eleitor foi ver, no meio de tanto ativismo, discursos repetidos sem pingo de novidade. Para a apregoada salvação da cidade não se percebia quais os principais desígnios nem as grandes medidas políticas. O que contava era a crítica e a acusação sem critério. É verdade que até às eleições haverá tempo para um programa claro, bem desenhado e fundamentado, ainda que não seja fácil com tantos partidos apoiantes e tantos ambicionados independentes.

Para já havia por ali muita oscilação, muita tremura e confusão de ideias. Mas todas as coisas têm o seu tempo, como vem na Bíblia.

Estava o eleitor neste emaranhado de dúvidas e interrogações quando olhou com atenção e percebeu que tinha, por lapso, misturado na sua leitura informações sobre a candidatura e um artigo sobre bicicletas. Da confusa candidatura tinha saltado para o desenho e características do selim, o tipo de mudanças (com um nome japonês), o tamanho das rodas, o sistema de travagem, o modelo mais adequado ao uso na cidade ou os modelos indicados para todo o terreno. Tudo coisas sobre bicicletas.

Como sabem os leitores estes acasos levam muitas vezes às grandes descobertas, às grandes ideias ou às mais intrigantes dúvidas sobre a origem do universo ou a natureza dos candidatos.

Instintivamente percebeu que havia ali qualquer coisa de premonitório.

Depois de se revolver em interrogações lembrou-se que uma coisa essencial numa bicicleta é o equilíbrio. O equilíbrio dos seus componentes e a capacidade de equilíbrio do seu utilizador. Uma solução anárquica, com carretos desajustados, rodas desconformes e sem adequado sistema de travagem é um problema. Ainda, por cima, se o condutor pedala aos zig-zag sem saber para onde verdadeiramente quer ir, dá mau resultado.

E foi assim que o consciencioso eleitor, que pretendia aproveitar as férias para se ir informando e adquirindo uma ideia segura sobre o futuro sentido do seu voto acabou ali, naquele momento, por chegar a uma inesperada conclusão: tinha confundido uma candidatura com uma bicicleta.

Talvez não tenha sido um mero acaso mas uma relevante coincidência. Agora ia esperar para ver quantos tombos o impulsivo ciclista não iria dar até outubro.

(Artigo publicado na edição de 15 de junho, do Diário de Coimbra)




quinta-feira, 1 de junho de 2017

É FÁCIL, É BARATO E DÁ...



Dentro de dias vai iniciar-se uma das maiores, senão a maior, campanha de marketing de um país, a nível mundial: a Volta a França em Bicicleta - “Le Tour”. 

É um espetáculo desportivo e televisivo em que verdadeiramente não se sabe se o mais relevante é o ciclismo se a venda da imagem da França. O ciclismo é o argumento mas desde há muito é o turismo e um conjunto de atividades económicas a ele ligadas, que é promovido de uma forma particularmente inteligente.

O “Giro” e a “Vuelta” são soluções decalcadas da prova francesa, assim como a nossa Volta a Portugal, só que as características do país, a sua dimensão, paisagem, riqueza histórica e cultural, bem como o património edificado, dão-lhe uma dimensão inigualável. Depois e não menos relevante, há uma consciência nacional da importância da imagem do país que suscita uma enorme participação popular.

Aprecie-se, por isso, o esforço e o mérito dos ciclistas mas olhe-se para as imagens dos espaços envolventes da prova, para o arranjo dos espaços públicos, dos edifícios históricos e mesmo das casas com jardins e flores que transmitem a imagem de um país cuidado e de grande beleza e organização.

Sabemos, todos, que na realidade a periferia das grandes cidades é, em muitos casos, assustadora e que as imagens que nos são apresentadas escondem realidades sociais bem duras, mas a imagem global com que se fica é altamente positivas.

Há, mesmo, um aspeto particular, que no nosso país é vulgar e muito associado ao poder local que são as rotundas. As rotundas, que são uma boa e económica solução a nível de segurança e de qualidade de circulação, são muitas vezes criticadas e com razão, por uma implantação excessiva e/ou deficiente conceção técnica.

Ora, como nos é abundantemente mostrado por essa França fora, as rotundas são não só equipamentos de natureza funcional mas também elementos estéticos, de embelezamento das entradas das cidades e tradutores de identidades regionais e locais.

É evidente que também temos bons exemplos, mas a verdade é que há ainda muito a fazer e que as nossas cidades vilas e aldeias terão muito a ganhar com a requalificação desses locais de encontro e de circulação por onde passa um enorme volume de trânsito e que são vistas por imensos cidadãos.

As rotundas são hoje um cartão-de-visita das cidades e também um elemento distintivo do interesse dos seus autarcas pela estética dos seus espaços, pela sua valorização ambiental e turística e pela criação de empatia com os visitantes e, se virmos bem, o seu alindamento é fácil, é barato e dá… 

(Artigo publicado na edição de 1 de junho, do Diário de Coimbra)